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Quem foi Miyamoto Musashi? | Parte 2

Quem foi Miyamoto Musashi? | Parte 2
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Voltamos para a segunda parte da história do mais famoso entre os samurais – Miyamoto Musashi.

Agora que já sabemos como era o período em que viveu e algumas informações sobre sua vida, iremos direto ao assunto:

Entre milhares de Samurais que viveram antes, durante e depois da época de Miyamoto, porque justamente ele ficou tão famoso? Existiram muitos outros famosos, e até mesmo mais virtuosos do que o próprio Musashi, como Oda Nobunaga (que inclusive é mais respeitado no Japão do que o próprio Musashi), Hideyoshi e Ieyasu – conhecidos como os 3 unificadores do Japão. Mesmo assim, entre eles, apenas Musashi é mundialmente conhecido e admirado.

O motivo é simples: Todos nós buscamos evoluir como seres humanos. Musashi representa este crescimento. Após conhecer sua história, esta evolução torna-se clara. Ao final deste artigo, entenderão o que digo.

Musashi nasceu na província de Harima, na parte sul da região agora chamada Hyogo, em um vilarejo que já não existe mais, chamado de Miyamoto. Seu pai era um exímio praticante de artes marciais, pertencente à casta dos “Bushi” (Casta Guerreira). Aos 7 anos de idade, Musashi passou a ser educado por seu tio, um monge budista chamado Dorinbo, que o ensinou a ler, escrever e os princípios da religião.

Provavelmente este foi o motivo pelo qual o escritor Eiji Yoshikawa desenvolveu em sua história romantizada de Musashi a versão de que  ele foi educado em um templo pelo histórico Monge Takuan – Segundo Yoshikawa, Musashi (Chamado ainda de Takezo) era um jovem extremamente selvagem, que após sobreviver à sangrenta batalha de Sekigahara, se escondeu no meio de uma floresta e passou a viver sozinho, matando todos que tentassem capturá-lo até que, guiado por muita astúcia, o monge Takuan conseguiu enganá-lo e prendê-lo em um templo durante  alguns anos, com apenas livros ao seu dispor. Quando saiu, tinha lido todos os livros e era uma pessoa completamente diferente.

Esta, logicamente, é a versão romantizada. O que sabemos é que durante os anos em que viveu com seu tio Dorinbo, Musashi também aprendeu os princípios das artes marciais com Munisai, seu pai. No entanto, Munisai – que era um samurai à serviço do lorde da região, Shinmen Sokan, recebeu ordens para matar um de seus alunos. Por ser leal a seu lorde, Munisai assim o fez, tirando a vida de um certo Honiden Gekinosuke.

A família de Honiden se revoltou com o assassinato, levando Munisai a fugir do vilarejo em que vivia, fazendo com que se afastasse de Musashi. Aos 13 anos, Musashi participou de seu primeiro duelo. Segundo o livro “O Samurai Solitário” do escritor William Scott Wilsom, um Samurai de nome Arima Kihei colocou um desafio no vilarejo em que Takezo (Musashi) vivia. Musashi colocou seu nome na folha do desafio, mas seu tio logo se desculpou pelo pequeno Musashi, pedindo que Arima desconsiderasse o desafio, mas o samurai mais velho apenas aceitaria tais desculpas caso o jovem se desculpasse em público na hora e local do duelo.

Imagem relacionada
Representação de um Samurai com a tradicional armadura de couro

No dia do combate, Dorinbo – com medo que seu sobrinho saísse machucado, tentou se desculpar, mas Musashi atacou Arima Kihei com uma espada de madeira. Arima contra-atacou com sua Wakisashi (espada curta usada por samurais, juntamente à Katana – espada longa). Musashi o arremessou contra o solo e no momento em que Arima estava se levantando, Musashi o golpeou entre os olhos, derrotando o oponente.

Aos 16 anos, Musashi deixou todos os bens de sua família, como móveis e armas com sua irmã e seu marido. Passou o resto de sua vida como um “Ronnin” – Samurais sem lorde a quem servir (Aliás, um ponto importante é o significado de o que era ser um Samurai. Musashi nunca foi efetivamente um Samurai, pelo fato de que a palavra em si significa “Servir”. Um Samurai deve servir, viver e morrer por seu lorde e seu clã. No caso de sua família, seu pai – Munisai Shinmen – vivia a serviço do Clã Shinmen e de seu lorde – Shinmen Sokan. Musashi viajava pelo Japão duelando e evoluindo sua técnica, sem servir a ninguém).

Seu segundo embate foi com um Samurai chamado Tadashima Akiyama, que o desafiou abertamente. E sim, também fora derrotado.

No ano de 1.600, Musashi participou da Batalha de Sekigahara, tida como uma das mais violentas e sanguinárias da história do Japão – existem fontes que colocam Musashi em ambos os lados da batalha, tanto dos derrotados (no livro romantizado de sua vida, Musashi inicia sua história acordando em um campo de batalha, cheio de sangue e do lado derrotado) como dos vencedores. Dificilmente saberemos a verdade.

Batalha de Sekigahara em que Musashi participou
Réplica de um quadro de 1620 A.D da Batalha e Sekigahara

É dito também que Musashi participou de outra grande batalha, o cerco a Osaka. Novamente, dificilmente saberemos a verdade. Fato é que, Musashi é amplamente conhecido por seus duelos, muitas vezes, travados com uma espada de madeira, contra armas de verdade. Entre um duelo e outro, Musashi se aperfeiçoou em diversas artes. Mas mantinha-se como um guerreiro bastante agressivo, até conhecer um mestre Samurai muito famoso no Japão chamado Yagyu Munenori. Está passagem do livro carrego comigo desde quando, aos 17 anos passei a me interessar pela história de Musashi. E é ela que – na minha opinião – define a lenda de Musashi:

Reza a lenda que em certo momento, um dos rivais de Musashi – Yoshioka – desafiou o mestre Yagyu Munenori. O velho mestre lutou incontáveis batalhas, chegando a ganhar o respeito do líder Tokugawa, recebendo honras a toda sua família, que passaram a servir o Shogun (Líder militar do Japão) como professores na arte da guerra. Yagyu, no entanto, não tendo mais o que provar ao mundo, se aposentou e ignorava todo e qualquer desafio.

No dia em que Musashi entrava em uma taverna, um serviçal de Yagyu estava entregando uma caixa com uma flor para Yoshioka, dizendo que o velho mestre não iria comparecer ao duelo por estar com uma gripe. A flor, entregue como forma de sinceridade e respeito foi arremessada ao chão pelo samurai Yoshioka, que o chamava de velho covarde enquanto ria do gesto educado de Yagyu. Musashi pegou a flor, que não aparentava ter nada demais, no entanto, com seus olhos extremamente treinados por anos como guerreiro, reparou no tipo de corte que fora feito no caule da flor: Um corte liso e perfeito que aparentemente fora feito com uma espada e não com um cortador de flores ou faca. Apenas um verdadeiro mestre seria capaz de tal feito. Musashi tentou fazer um corte igual, mas não importava o quanto tentasse, seu corte saia sempre serrilhado, nunca liso e perfeito igual ao de Yagyu. Musashi então fez um corte similar em uma flor e enviou ao mestre, como convite para conhecê-lo.

Musashi foi ao encontro do mestre e ao conhecê-lo perguntou porque, apesar de ele ser um guerreiro experiente, com diversas batalhas vencidas, não conseguia um corte perfeito como o seu. Yagyu, analisando Musashi, apenas disse: “Seja mais fraco”.

Miyamoto Musashi passou muito tempo sem entender o que aquilo queria dizer. Segundo o que dizem sobre Musashi, ele era muito agressivo e determinado. Mas a determinação de Musashi beirava a insanidade. Ele apenas treinava e lutava, sem pensar em mais nada. Segundo o mestre Yagyu, essa força excessiva de Musashi era também sua maior fraqueza. Ele era simplesmente forte demais para compreender a suavidade que algumas técnicas requerem.

Musashi finalmente compreendeu isso quando decidiu relaxar em um bar. Aliviar seu stress e sua mente. Aproveitou a noite, sem preocupações. No outro dia pela manhã, tentou fazer um corte igual ao de Yagyu e para sua surpresa, conseguiu. A partir deste momento, Musashi tornou-se um mestre, pois entendeu o que os antigos sabem a muito tempo: o equilíbrio é tudo na vida.

Este é o motivo de Musashi ser tão popular: Sua profundidade como personagem. Ele é símbolo de crescimento físico e mental.

 

Mantenham a guarda alta. Oss

Faixa preta de Jiu-Jitsu, estudioso do universo das lutas e administrador do Golpes de Luta.